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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Ter Mãe

É fácil a gente ter mãe
E quase toda gente tem
Mãe é uma coisa tão bela
Pena é que há pelo mundo
Os que só sabem que teve mãe
Porque ouviu falar dela

Muitos só a conhecem de nome
Às vezes mesmo nem isto
Mãe, para muitos é uma simples palavra
Como uma nuvem ao vento
Ou um simples vazio no pensamento

É fácil a gente ter mãe
Muitos nem percebem que tem
No dia-a-dia ao seu lado
Quando se tem a certeza
E se sabe aonde ela está
Para dividirmos com ela
Uma alegria ou uma tristeza
Que basta só querer vê-la
Assim é fácil ter mãe

Até o dia em que ela falta
Aí então é como se a terra
Que a gente pisa se acabasse
Debaixo dos nossos pés
Difícil sim é perdê-la
E ter que aceitar a ideia
De que no lugar de sempre
Ela não se encontra mais

Não adianta abrir a porta
Nem pensar na varanda
A cadeira está vazia
Na cama não tem ninguém
Aquela voz que conforta
Que nos dá tanta paz
É um bem que não tem preço
Para toda família o maior bem.

Esta voz não ouviremos mais
Calou-se!
É que ela agora mudou-se
Para um lugar sem endereço
Aonde Deus mora, no além.

É fácil a gente ter mãe
Mãe é como uma estrela
Estrela guia que a gente tem
E trás guardada dentro de si
Difícil é suportar perdê-la
Como uma estrela cadente
Que de repente se apaga.

Antônio Alves dos Santos
08/12/1982

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Sobre o vilarejo em que meu pai nasceu

Povoado Ibipira

A origem do povoado Enjeitado.

Na década de trinta, depois do movimento dos tenentes, prestaram uma homenagem ao tenente revolucionário Siqueira Campos - morto em um naufrágio na travessia do Rio Uruguai quando viajava em companhia do também tenente João Alberto, nascido em Rio da Barra, distrito de Sertania (PE) -, dando um novo nome ao povoado, que passava a se chamar Siqueira Campos como nome oficial, mas o tradicional Enjeitado continuou em evidencia até o presente momento.

Na década de quarenta ou cinqüenta surge um padre na região chamado Padre Borgeia e, como a Igreja é uma instituição que tem um poder de influencia muito grande nos dias atuais - imagine há cinqüenta anos atrás -, o Padre Borgeia fez a cabeça do povo nos seus sermões insinuando que não era justo homenagear um revolucionário, um comunista, e que tinha que mudar o nome do povoado. Então, impondo a sua vontade, e com a concordância dos menos esclarecidos, mudou o nome oficial do povoado para Ibipira.

O povo que ali habitavam eram oriundos do estado do Ceará. A migração ocorreu no século XIX, pelos idos de 1877 a 1880. Fugindo da grande seca de 1877 partiram muita famílias para o estado do Maranhão em busca de água e terras férteis. Estas eram as famílias Rodrigues, Canário, Leite, Domingo, Santiago, Santos, Assis, Oliveira, Guedes, Pereira, Baiano da Silva, Brito, Souza, Quirino, Leonardo, Bezerra, Castro, Belizário, Mateus, Bernardino, Carolino, Nogueira, Ferreira e Fonseca.

Parte destas famílias (Bernardino, Carolino, Rodrigues, Medrado), ficaram num povoado chamado Mata Velha, próximo aonde já existia o povoado Mata do Nascimento. Mais tarde a fusão dos dois povoados deu origem à cidade de Dom Pedro. As demais famílias seguiram para o povoado de Mirador, lugar banhado pelo rio Itapecuru. Lá alguns membros da família Bezerra ficaram, e outros seguiram, pois foram informados de um lugar não muito distante que tinha muita água e terras férteis, só que era um lugar abandonado, situado entre duas serras aonde fica a nascente e por onde corre o riacho São João. Era o vão do Enjeitado, assim chamado porque tinha animais ferozes e dava muita malaria ou cesão (como é conhecido na região).

E para lá eles se foram. Povo desbravador, muitos deles traziam algum recurso. Lá se assentaram, espantaram os felinos, e em pouco tempo transformaram o lugar num centro de produção de arroz, milho, feijão, fava, algodão, mandioca, enfim, tudo para o próprio sustento, e aproveitavam também os recursos nativos região, em especial o Babaçu. Dele se aproveita tudo: a palha é usada para cobrir casas; a castanha extraída do coco é rica em óleo, que serve para alimentação, para fazer sabão, para fabrição de cosméticos; a casca contém alto teor de combustão, serve para ser queimada em fornos de siderurgia, dá um carvão de primeira para ser usado em casa; a palmeira de babaçu tem uma haste grande, então quando morre e apodrece faz um adubo natural para a terra. E há babaçu em abundancia na região, além de muitas terras férteis (terra de barro massapé).

Passaram a cultivar cana, criar gado, e fabricar rapadura e cachaça, que ainda hoje é uma das atividades principais do povo da região.

Este pessoal veio de vários lugares do Ceará. Meus bisavós maternos, que eram Domingo Santiago, vieram do lugar que deu origem à cidade de Campos Salles direto para o povoado Enjeitado, aonde já moravam muitos conhecidos. Chegando lá, compraram uma propriedade já formada, construída pelo meu bisavó paterno, o senhor José Canário. Os meus bisavós maternos se chamavam José Domingo Santiago e Maria dos Santos Santiago. Zé Domingo, como era conhecido, era um homem de bem, muito conceituado, amigo dos coronéis da Guarda Nacional, de tal modo que quando as tropas comandadas pelo General Isidoro Dias Lopes passou pela região procurando aqueles que tinham aderido a coluna Prestes eles receberam recomendação expressa do coronel José Brandão do Povoado Picos (que veio a ser depois a cidade de Colinas), para que não perturbassem o cidadão Zé Domingos e família.

Muito trabalhador, Zé Domingos ali fez patrimônio. Quando veio falecer, deixou bastante terra e gado para seus filhos. A família de Zé Domingos e Maria era pequena para os padrões da época, com apenas seis filhos: Ana Maria (conhecida por Naninha), Tertulina Maria (conhecida por Terta, minha avó), João Domingo, Domingo Santiago, Antônio e Osterno. Dos irmãos da minha avó Terta conheci Domingo e Osterno.

Tio Domingo era ferreiro e trabalhava de forma bem primitiva. A fundição dele era um assoprador chamado forja que ele mesmo fazia, assoprava o fogo no carvão (que atingia altas temperaturas), daí o ferro ficava flexível e ele moldava a peça conforme o que ele pretendia fazer. Ele tinha o molde da peça, então o metal era derretido e colocado na fôrma. Em pouco tempo a peça estava pronta. As peças eram para arreios usados em animais, peças para revolveres, pistolas, espingardas, rifles. Ele fazia coisas interessantes.

Osterno gostava muita da minha mãe. Ele era muito engraçado, contador de estórias, botava apelido em todo mundo. Certa vez, me lembro, ele contou uma historia relatando os caprichos do homem de palavra que era o pai dele. Zé Domingos certa vez conversava com uns amigos contando estórias do Ceará, sua terra natal. Na região em que ele nasceu e se criou, em conseqüência das constantes secas que assolam a região, um lago tinha secado ao ponto do peixes virarem pedra, o que foi motivo de risada dos presentes e ele ficou muito chateado. Então arrumou uma viagem e mandou seu filho Toinho, em companhia de outra pessoa, que fossem ao Ceará e trouxessem vários peixes-pedra (como eram chamado), e que hoje chamamos peixes fossilizados. Então Toinho seguiu mundo afora. Passados alguns meses ele chegou com as pedras, aí Zé Domingos convidou aqueles que antes tinham sorrido dele e, ao ver as pedras, ficaram todos cabisbaixos.

O interessante, segundo meu tio Osterno, era que, quando Toinho viajou para o Ceará e perceberam a falta dele, perguntavam "Cadê Toinho?", e eles respondiam que ele andava para a Travessia cuidando do retiro de gado. Travessia é uma região próxima do Enjeitado que tem muita água e pasto nativo, então no período da seca (que vai de junho a outubro) costumam levar o gado para aquela região para o que chamamos de retiro.

Meus outros bisavós maternos, Francisco Leite de Souza (conhecido por Chiquinho) e Maria Pereira Leite (conhecida por Pereira), tinham como origem Santana do Cariri (CE). A família deles era de quatorze filhos: Maria, Ana Amélia (conhecida por Losa), Rita, Josefa, Antônia, Otília, Ramiro, Almerinda, Vicente, Júlio, Luís, José, João (conhecido por João Chiquinho, meu avô) e Francisco, que faleceu quando criança. Aí começa a mistura, isto é, o casamento entre as famílias. Dois filhos de Chiquinho e Pereira casaram com filhos de Zé Domingos e Maria: João Chiquinho e Terta, meus avós, e Antonio Domingo e Rita Pereira. Os irmãos do meu avó João Chiquinho, José e Almerinda casaram com os irmãos da família Rodrigues de Oliveira e Castro, Maria Rodrigues de Oliveira (sinhá) e Antonio Rodrigues de Oliveira Castro (Antonio Aguida), filho de Raimundo Pereira de Castro (Raimundo Aguida) e Maria Rodrigues de Oliveira (Marica Rodrigues).

João Chiquinho e Terta tiveram seis filhos: Josina, minha mãe, Antônio Francisco (que faleceu ainda criança), Rosalina (conhecida por Rosa), Maria (conhecida por Mariinha, falecida em 1989) e Rita. Minha avó Terta faleceu em 1944 e meu avô casou novamente com Antonina Oliveira Brito e tiveram quatro filhos: Benta, Nildete, Almeron e Gilvan (que faleceu em 26/04/1993, aos 36 anos). Meu avô João Chiquinho faleceu em 13/02/1993, com 93 anos. João Chiquinho era analfabeto, mas era inteligente e dotado de uma memória extraordinária. Ele fabricava e vendia cachaça, tinha pagamento dos trabalhadores e outros pequenos negócios tudo na cabeça. Fazia conta de soma e multiplicação com rapidez. Não perdia em negocio nem passava troco errado. Foi um homem muito trabalhador. Para ele todo dia era dia de trabalhar. Ele tinha um sítio aonde plantava cana e fabricava cachaça e lidava com vários homens trabalhando. O pessoal no interior vive procurando dia santo, então o peão dizia "Seu João, amanhã é dia santo". A reação do meu avô era espontânea e falava assim: "A questão é esta, rapaz: é dia santo mais você come." Aí o peão confirmava que sim, ele reiterava "Então é dia de trabalhar." Não quero dizer que o meu avô não respeitava o dia de descanso do trabalhador, o domingo era dia de descanso, e os principais dias santos, como São João, Nossa Senhora Aparecida, que é a padroeira do nosso povoado, Sexta feira da Paixão, e outros que não me lembro.

Outra dele: às vezes era sábado e surgia um problema corriqueiro do dia-a-dia que só podia ser resolvido na segunda feira. Então o trabalhador dizia "Seu João, tem um problema para ser resolvido na segunda feira", de imediato ele respondia "A questão é esta, rapaz: se o problema é pra segunda feira, deixe pra se preocupar com ele na segunda feira, porque só se tira as alpercatas na beirada do rio."

Na família dos meus bisavós Chiquinho e Pereira existiu uma supertição com o nome Francisco. Um irmão do meu avô chamado Francisco não se criou, meu avô deu o nome de Francisco a um filho e não se criou, e Luis Pereira, irmão de João Chiquinho, deu o nome de Francisco a um filho que também não se criou e faleceu de maneira trágica queimado. Então, diante destas coincidências, não tem neto e nem bisneto de Chiquinho e Pereira chamado Francisco.

Do lado paterno, os pai de minha avó Izabel Canário dos Santos (conhecida por Biluca), era José Canário (conhecido por Zé Canário). Zé Canário foi casado três vezes, duas com irmãs. Dos três casamentos gerou vinte e seis filhos. Só sei o nome de alguns. Minha avó Izabel, por ser muito mimada, ganhou o apelido de Biluca. Ela era a filha caçula do segundo casamento de Zé Canário. Dos irmãos da vó Biluca sei apenas o nome alguns: Otávio, Maria, Luís, Joana, Benta, Belinha, Raimunda, José Canário.

Minha avó era prima primeira dos Baiano da Silva. Meu bisavó Zé Canário era um homem rico. Tinha muitas terras, plantação de cana e gado mas, segundo a minha vó, Zé Canário era um homem desprendido do que tinha. Era farrista e jogador de baralho. Apostava dinheiro, gado terra, cavalo de sela, arma, jóias. O velho era um bicho tão doido que fazia cigarro em cédulas de mil réis, mas fracassou e, quando veio falecer (estava viúvo, tendo sido casado três vezes), dos bens que possuiu não tinha mais nada.

Biluca casou com Gonçalo Rodrigues da Silva (conhecido por Amâncio). Sobre a família do meu avô Amâncio, assim, pai e mãe, eu não sei nada. Sei apenas que tinha muitos irmãos que eram da família Rodrigues Feitosa, de Inhamum (CE) e que, quando vieram para o Maranhão no inicio do século XX, não vieram todos. Ficaram alguns em Inhamum e o que sei é que nunca mais tiveram contato com eles. Vieram Leonarda, Selisjoana (ou Sabida), Maria José. No Enjeitado casaram Rodrigues com Canário, com Belizário Nogueira, com Quirino, com Albino, com Mateus. Meu avô Amâncio e minha vó Biluca tiveram sete filhos: Cícero, Benta, Velomina, Maria, Amélia (todos falecidos), Raimundo (conhecido por Bizinza), José (conhecido por Zé Biluca, meu pai). Meu avô Amâncio faleceu homem novo, em 1932. Minha avó Biluca faleceu dia doze de agosto de 1976, aos oitenta e quatro anos. Meu pai Zé Biluca casou com Josina, filha de João Chiquinho e Terta, neta de Zé Domingo e Maria e de Chiquinho e Maria Pereira.

Antônio Alves dos Santos (Antônio Biluca) - 1951-2004

domingo, 17 de janeiro de 2010

Outras máximas de meu pai

Morrer por uma ideia é muito bonito, mas por que não deixar a ideia morrer antes de você?

Os sonhos e a esperança são dois calmantes que a vida concede ao ser humano.

A leitura torna o ser humano completo, a conversa torna-o ágil, e escrever dá-lhe precisão.

Antônio Alves dos Santos (Antônio Biluca) - (+1951-*2004)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Caso do Relógio

Amigo internauta,

Segue mais um texto de meu pai. No cordel abaixo, ele narra alguns apuros de uma pessoa que comprou um relógio de um desconhecido.

O Caso do Relógio
Antônio Alves dos Santos

Vou escrever sobre um fato
Que aconteceu no Gama
No qual um colega nosso
Foi vítima de um pilantra

Valdetário muito humilde
Conta que com este
Pilantra encontrou
Sem saber que estava

Sendo enganado. Um
Relógio lhe comprou
Não sabia que o mesmo
De alguém ele roubou.

Fazendo a pior bobagem
Pensando em levar vantagem
Pra casa o relógio levou
Passados não muitos dias
O pilantra foi em cana

Os tiras investigando
Ele disse, o relógio
Vendi a um bacana
Que mora no Novo Gama

Era uma sexta-feira
Ele levantava pensando
Na semana que encerrava
Quando os tiras na porta
De sua casa chegavam.

Em pouco tempo na
Décima quarta DP
Ele se justificava
Na sala do delegado.

Ele se indentificava
Dizendo "Seu doutor,
Não sou receptador,
Nesta fui enganado

Veja, meus documentos
Provam que sou
Funcionário do Senado
E gostaria de ser logo
Pelo senhor liberado."

O delegado disse "você
Daqui só sairá, quando
A sua estória contar.
Valdetário dizia, "doutor

Dê-me licença pra meu
Chefe vou telefonar
Pedindo um advogado
Pra vir aqui me soltar."

Às quatro horas da tarde
Ele foi liberado
E como já era tarde
Não veio mais no Senado.

Segunda feira no Senado
Ainda muito assustado
Ele dizia que temia o pior
Com medo de passar
A noite no xilindró.

Ao sair da sala do delegado
Ele dizia "juro por Deus seu doutor
Que esse caso não se repete
Obrigado por me dispensar
De falar com o gogó das sete"

Brasília, 06/04/1981
Antônio Alves dos Santos (Antônio Biluca)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Paródia sobre o casamento

"Casamento é como a oração da Salve Rainha.
No início é só vida, doçura e esperança nossa.
Passados alguns anos é mãe de misericórdia,
os degredados gemendo e chorando neste vale de lágrimas
e chame logo a advogada nossa"

Antônio Alves dos Santos (Antônio Biluca) *19-07-1951 +10-10-2004

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Máximas de meu pai

Amigo internauta,

Meu pai, Antônio Alves dos Santos, nasceu em Ibipira, um município no sul do Maranhão. Mudou-se para Brasília nos anos 1970, aonde começou a trabalhar como instrutor de auto-escola e depois virou motorista. Um àvido leitor, ao longo de seus 53 anos de vida ele escreveu alguns textos que compartilharei com vocês nesse blog.

Abaixo seguem algumas máximas que ele repetia à exaustão. Duas ou três eram faladas com tanta frequência que seus colegas de trabalho já a tomavam como um bordão. São conselhos que revelam um pouco do seu ponto de vista sobre o mundo.

"Cabeça vazia é morada do cão.

Só se tira o chinelo quando se chega na beira do rio.

Boa romaria faz quem em casa fica em paz.

O melhor amigo do homem é o cachorro, porque não conhece dinheiro.

A isca é menor do que o que pretendemos pegar.

Na vida só não tem jeito pra morte e olho furado.

O que frusta o ser humano não é o impossível, é o possível não alcançado.

É difícil quando se tenta mudar algo e não conseguimos. E o mais frustrante é quando não aceitamos as diferenças.

A sorte do egoísta é viver sem preocupações. Seu destino é morrer sem afeto.

A sabedoria consiste em o ser humano ter noção dos seus limites, em especial a sua ignorância.

A arte de viver se compõe em 90% na capacidade de se conviver com pessoas que não se pode suportar.

Enquanto égua parir cavalo, São Jorge não anda a pé"

Antônio Alves dos Santos (Antônio Biluca) - *19-07-1951 +10-10-2004