sábado, 28 de fevereiro de 2009

Resenha de violões: Jeff Kemp 1999

Amigo internauta,

Outro violão que conheci recentemente foi um do australiano Jeff Kemp. Com tampo de cedro e lateral e fundo de jacarandá, é construída baseado no projeto de seu conterrâneo Greg Smallmann. O tampo é extremamente fino, com uma treliça de madeira-balsa e fibra de carbono como leque harmônimo, muita massa na lateral e fundo e fundo arqueado, com o objetivo de fazer com que toda vibração sonora que passe do tampo para a lateral e o fundo seja "rebatida" para o tampo.

É um instrumento de timbre muito escuro, com notas sem tantas parciais agudas e predominância da nota-base. Tem um equilíbrio satisfatório, com leve predomínio dos extremos (grave e agudo soam mais que médios). Embora seja um som menos rico que de violões dos anos 1960, soa próximo o suficiente de um típico violão espanhol de cedro para um leigo ter dificuldade de reconhecer a diferença.

O violão tem um envelope sonoro peculiar. Ouve-se o ataque, em seguida uma espécie de "rebote" ou "eco" do ataque, uma sustentação contínua e curta, e uma queda demorada.

É um instrumento bem potente, provavelmente 8,5 numa escala de 0 a 10. Mas ele preenche muito o ambiente, soando como caixas de som com "surround system". Essa sensação de estar mergulhado por um som encorpado dá a impressão do violão ser mais potente que realmente é. O que o intérprete ouve reflete bem o que a platéia escuta.

Ele é mais fácil de tirar um bom som, porém na mão esquerda apresenta uma facilidade entre média e boa. Tem uma resposta linear, porém, como vários outros violões de cedro, a gama de timbres não é tão ampla.

O violão tem um bom acabamento, e usa goma-laca fosca no tampo.

Recomendo para quem gosta de violão escuro, potente, confiável e que exige pouco da mão direita. Repertório que se favorece das qualidades do instrumento: música espanhola; composições com melodias na região grave; peças com caráter sombrio; composições com harmonia rica e colorida, como as de Ponce.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Resenha de violões: Fernando Mazza 2008

Amigo internauta,

Recentemente tive a oportunidade de conhecer um violão desse luthier argentino, e gostaria de compartilhar minhas impressões sobre seu trabalho.

O tampo é de cedro canadense, com laterais e fundos laminados. Utiliza de técnicas de construção australianas, associadas a construtores como Simon Marty e Greg Smallman.

Embora o violão não tenha nem um ano de idade, apresenta sérios problemas. O tampo apresenta uma rachadura paralela à região da escala que fica sobre ele, quase com a mesma extensão da escala. A lâmina externa da lateral e do fundo apresenta problemas, e apresenta alguns buracos entre 0,5 cm a 1,5 cm de diâmetro. A escala empenou.

O instrumento está na Alemanha, e enfrentou condições climáticas distintas de Buenos Aires, aonde foi construído, o que pode explicar o ocorrido. Ainda assim, tantos estragos em tão pouco tempo não pode ser apenas resultado de mau-uso ou clima desfavorável.

O acabamento como um todo é muito grosseiro, e alguns detalhes que parecem cômicos, como uma pestana de metal bem tosca e um rastilho feito com muito desleixo.

Apesar de tantas falhas, ainda acho interessante falar desse instrumento porque ele é extremamente fácil de tocar, principalmente na mão esquerda. Foi um choque ver um violão que está se despedaçando por completo em tempo recorde estar entre os três mais fáceis de tocar que conheci. É o tipo de situação que nos faz perguntar como é possível luthiers muito mais talentosos não serem capazes de construir instrumentos que não tem a metade da facilidade de tocar como esse.

O violão soa como um violão de cedro normal. Tem um bom equilíbrio, com um pouco menos de parciais agudas (como diversos violões de cedro). Resposta rápida e linear. No entanto, o empeno na escala comprometeu todas as notas até a sétima posição, e exige que o intérprete toque com mais leveza ao tocar nas primeiras posições.

Tem um bom ataque, pequena sustentação, mas queda muito lenta e gradual. O formato do envelope sonoro num gráfico intensidade x tempo seria parecido ao de um triângulo retângulo.

Como o empeno na escala exige que se toque com mais leveza nas primeiras posições, só é possível ouvir bem todo o potencial do instrumento nas regiões agudas. A potência é acima da média, cerca de 8 numa escala de 0 a 10. Embora a situação em que testei não seja a mais adequada para avaliar como o instrumento soa à distância, fiquei com a impressão que a projeção está na média, e à distância ele não soe tão bem e claro. Porém, o que se ouve tocando é muito próximo do que a platéia ouve.

Recomendo esse violão para quem busca um violão extremamente fácil de tocar e de controlar o resultado sonoro final, a um preço competitivo (segundo fui informado, cerca de 4.400 reais). No entanto, a baixa durabilidade dele é preocupante, portanto acho mais seguro comprar de segunda mão um violão feito por esse artesão, ou aguardar algum tempo pra ele aprimorar sua técnica.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Formas musicais: rondó

Amigo internauta,

Continuando nossa conversa sobre formas musicais, vamos abordar outra forma simples de entender e muito presente no nosso dia-a-dia, o rondó.

A forma rondó consiste em tocar uma seção A (que também pode ser chamada de refrão), uma seção diferente (B), repetir a seção A, tocar outra seção distinta (C), repetir A, indefinidamente.

Aproveitando o clima de carnaval, seguem dois exemplos de rondó com refrão:





Na música brasileira a forma rondó é muito presente especialmente no choro, como podemos ouvir na interpretação de Odeon, composta por Ernesto Nazareth:



A seção A é repetida em 1'22" e 2'22". É um típico exemplo de rondó ABACA.

Especialmente na música com letra há um terreno duvidoso de classificação. Analisando apenas as notas musicais na sua forma mais básica, a canção é um ABA (ou mesmo apenas AB). Porém, a letra de um seções (e por vezes o arranjo) varia, enquanto outra se mantém igual. No exemplo abaixo, a seção do solo de guitarra vir entre dois refrões deixa ainda mais difícil de se classificar com precisao.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Estudando música no exterior: Alemanha

Amigo internauta,

Desde que vim estudar na Europa vários colegas têm me perguntado como fazer para estudar aqui. Vou então fazer uma pequena série falando de alguns destinos para estudar música no estrangeiro. Inicio pelo país em que estou morando, a Alemanha.

Cenário musical

Há cerca de 300 anos a Alemanha é um dos países mais importantes no mundo da música. A maior parte dos grandes compositores nasceu ou viveu nesse país, que tem algumas das melhores orquestras e eventos de ópera do mundo. Poucos locais são tão atrativos para estudar música erudita no mundo.

Cenário acadêmico

Embora seja difícil encontrar um professor picareta, é comum achar professores desmotivados, que não reciclam seus conhecimentos há muito tempo, ou pouco talentosos. Paulatinamente está havendo uma renovação dos cargos de professor nas escolas superiores de música, e há uma forte tendência de professores mais entusiasmados, atualizados e competentes ocuparem essas vagas.

Mesmo em instrumentos que os alemães não têm uma tradição forte, como no violão, lecionam nesse país alguns dos mais destacados professores do mundo.

Sistema educacional

Na Alemanha é possível estudar música numa universidade (Universität) ou escola superior de música (Musikhochschule). Nas Universitäten se ensinam apenas matérias teóricas, quase todas ligada à musicologia (Musikwissenschaft), e exigem uma alta proficiência no idioma. Quem quer tocar, reger e compor tem de estudar nas Musikhochschulen.

Nas Musikhochschulen os cursos ministrados são de formação artística (Kunstlische Ausbildung), pedagogia musical (Musikpedagögik) e mestrado (Meisterkurz). Os dois primeiros são equivalentes à graduação do sistema educacional brasileiro (bacharelado e licenciatura, respectivamente). O Meisterkurz não é reconhecido como mestrado no Brasil, apenas como curso de especialização.

Algumas escolas estão oferecendo cursos próximos do sistema educacional dos EUA, o Bachelor e o Master. Como essa mudança não tem um ano, desconheço qualquer manifestação de uma instituição no Brasil que diga se o Master é reconhecido ou não no Brasil.

Indo ao país

As vagas nas boas escolas são muito disputadas, e pode acontecer de um professor não oferecer nenhuma vaga para aluno novo num determinado ano. Além disso, diversas instituições alemãs (embaixada, consulado, fundações acadêmicas) costumam exigir uma carta do professor que você pretende estudar. Portanto, diria que o primeiro passo para estudar na Alemanha é conhecer pessoalmente o professor almejado. Fazer uma aula com ele é fundamental.

A burocracia é lenta, portanto recomendo pelo menos 10 meses de antecedência para iniciar a tradução de todos os papéis.

As duas principais instituições que fornecem bolsa de estudo são o DAAD e o KAAD. Atualmente a verba do DAAD têm diminuído bastante. Uma bolsa de estudo na Alemanha significa o depósito mensal de uma ajuda de custo numa conta bancária sua e, com frequência, um curso intensivo de alemão antes do início do curso.

Praticamente todas as escolas alemãs são do governo, mas recentemente todos os alunos têm de pagar uma semestralidade para estudar. Atualmente a semestralidade custa entre 300 a 600 euros.

A embaixada ou consulado irá pedir alguma comprovação de fonte de renda, que pode se dar por três formas: ter ganho uma bolsa de estudos, ter numa conta bancária valor superior ao recomendado (cerca de 7.500 euros, atualmente), ou documento assinado por um responsável na embaixada dizendo que ele se compromete a te custear - naturalmente, essa pessoa tem de possuir bens superiores ao mínimo exigido pela embaixada.

Vivendo no país

Há na Alemanha residências estudantis (Studentenwonheim), mas elas não tem qualquer ligação com as escolas e universidades. Para viver numa Studentenwonheim, o processo é praticamente o mesmo de alugar um apartamento por uma imobiliária. Com frequência os custos de aluguel são parecidos. No entanto, pode-se economizar em internet, telefone, lavanderia e outros.

A maior chance de conseguir uma vaga numa Studentenwonheim é em junho e julho. A partir de setembro é praticamente impossível. Alguns sites ajudam a iniciar uma busca por imóvel ainda no Brasil, como o www.immobilienscout.de .

Além de alugar um apartamento no mercado imobiliário, outra opção é buscar uma república (WG). Um site útil para encontrar vagas em repúblicas é o www.wg-gesucht.de .

Todo mundo que vive na Alemanha (incluso os alemães) precisam se registrar no escritório dos moradores (Einwohneramt). Assim que conseguir uma residência, registre-se no Einwohneramt. Sem esse documento de registro não é possível abrir conta em banco, ter conta de telefone celular, assinar contrato de internet, nem regularizar o seu visto.

É possível viver no país falando um bom inglês. No entanto, para se integrar na sociedade, ou lidar com qualquer órgão do governo, falar alemão é importante. Há várias oportunidades de estudar a língua a preços módicos ou de graça, como em cursos fornecidos por entidades estudantis ou na internet, como em www.dw-world.de .

Ficando no país permanentemente

Há diversas oportunidades para músicos estrangeiros conseguirem trabalho na Alemanha. A mais comum é ensinando crianças e adolescentes em escolas particulares.

A legislação alemã é das mais condescendentes para com o estrangeiro. Entre as leis que favorecem o imigrante a continuar no país, é permitido que todo estrangeiro possa viver mais um ano na Alemanha após sua formatura para buscar emprego. Com um contrato de trabalho, o estrangeiro passa a ter visto.

É melhor ficar no Brasil se...

O principal problema de estudar na Alemanha é o fato do diploma de mestrado não ser aceito no Brasil. Dependendo dos objetivos do músico, estudar de 3 a 5 anos para obter um diploma sem valor no meio acadêmico pode ser uma péssima escolha.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Acuma?

Amigo internauta,

A ANAC determinou que os pilotos brasileiros de voos internacionais são obrigados a ter certificação de conhecimentos de inglês a partir de cinco de março.

Tal iniciativa seria obrigatória desde o ano passado, mas a pressão das companias aéreas postergou a data.

A pergunta que não quer calar: quer dizer que hoje os pilotos voam sem saber inglês? Como são capazes de se comunicar com a torre de controle de outro país? Usam mímica?

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Técnica: estudando escalas (1)

Amigo internauta,

Vou iniciar uma série de dicas técnicas para violonistas. Começo falando de escalas.

Acho um desperdício estudar técnica apenas pra exibir habilidade manual exuberante, então todas as dicas serão mais úteis para quem crê que uma técnica sólida é importante para fazer música, mas não é o objetivo final.

Portanto, cada exercício tem por objetivo desenvolver recursos que serão úteis ao tocar uma composição musical. É como se cada dica fosse um item no bat-cinto de utilidades, pronto pra ser usado quando necessário. Procurarei deixar clara a relação entre o que será estudado e sua utilidade ou importância ao tocar música.

Esse primeiro exercício de escalas visa promover uma sonoridade limpa e uma melhor coordenação entre as mãos. Uma boa coordenação entre as mãos é fundamental para conseguir diversos resultados musicais, entre eles o controle da articulação e um bom legato.

Escolha qualquer escala de sua preferência. Para esse exercício, é melhor que sejam empregadas escalas que utilizam o mínimo de cordas soltas possível. Talvez seja prudente começar por escalas na mesma posição para depois estudar escalas que usam saltos, aberturas e contrações, mas ele pode ser feito com qualquer escala.

Todas as notas serão tocadas em staccato curto. Cada dedo na mão esquerda tem de apertar a corda cerca de 1 mm à esquerda do traste, sem tensão ou esforço extra ( leia mais nesse link ). Pressione a corda lentamente. Assim que a corda encostar no traste, dedilhe com a mão direita e relaxe a musculatura das duas mãos. Para garantir que você está relaxando de verdade, no começo é válido fazer um "rebote" nas duas mãos. Nesse "rebote", tanto o dedo da mão esquerda quanto da direita encostam de novo na corda, sem pressioná-la ou dedilhá-la.

Faça esse exercício lentamente - no máximo uma nota por batida a 60 bpm. O objetivo desse estudo é coordenação e limpeza, não velocidade. Mais à frente vamos falar de exercícios para tocar escalas rápidas, mas primeiro vamos tocar com coordenação perfeita e limpeza absoluta.

Pro exercício servir ao seu propósito, observe atentamente se a mão direita dedilha exatamente no momento em que a corda encosta no traste, nem antes nem depois, e se a mão esquerda aperta a corda cerca de 1mm à esquerda do traste.

Comece estudando sempre com o mesmo dedo na mão direita, tocando uma vez toda a escala com p, depois toda a escala com i, toda a escala com m, toda a escala com a e, se você quiser desenvolver o mindinho da mão direita (chamado de c, de chiquito), toque toda a escala com este dedo. Como a escala será tocada lentamente, e os dedos relaxam por completo após o ataque, não há problema em repetir o dedo.

Caso você esteja estudando uma escala com saltos na mão esquerda, primeiro faça o "rebote" para depois efetuar o salto. Ou seja, primeiro relaxe totalmente a musculatura, para só depois saltar.

Bons estudos, amigo internauta!

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Sobre o caso da brasileira supostamente atacada na Suíça

Amigo internauta,

Desde a semana passada a comunidade brasileira que vive na Europa (em especial na Suíça, Áustria e Alemanha) têm acompanhado com apreensão o caso da brasileira supostamente atacada por neonazistas.

Nesse blog escrevi sobre casos de brasileiros que têm sofrido agressões e abusos de poder de autoridades estrangeiras, como no caso do violonista e compositor Guinga, que aos 60 anos tomou um murro provavelmente dado por um policial espanhol tão forte que o fez perder dois dentes. Relatos sobre outros maus-tratos na Espanha são diários, e até na Bolívia se vêm verificando um preconceito ostensivo contra brasileiros.

Em todos os casos citados acima, a "atuação" do Itamaraty tem sido pífia.

Seja por uma pressão para que o Ministério das Relações Exteriores realmente proteja os cidadãos brasileiros no exterior, seja porque o pai da garota em questão trabalho no gabinete de um deputado, pela primeira vez vemos o Itamaraty fazer alguma coisa.

Não podia ter havido momento pior.

A julgar pelas recentes informações, tudo não passaria de invenção da jovem. O advogado dela tem dito à imprensa que ela possuiria uma doença física que pode causar alucinações.

O provável desfecho se mostra o pior possível para os brasileiros que vivem no exterior. Tememos que o Itamaraty volte a ter um nível de descaso grotesco para com atos que atentem contra seus cidadãos no estrangeiro, que a imprensa nacional deixe de noticiar agressões e abusos de autoridade no exterior, que nos países de língua alemã os brasileiros tenham uma imagem negativa, e que simpatizantes da ideologia de extrema-direita (entre eles neonazistas) passem a nos ver como um alvo preferencial.

Esperamos que o pior não se concretize. A intervenção do MRE foi positiva, e queremos que ele intervenha sempre que ocorrer casos semelhantes. A atuação da imprensa também é muito importante.

O que importa, amigo internauta, não é o desfecho de um caso particular, mas que o governo proteja seus cidadãos no exterior e se envolva ativamente na promoção da segurança e bem-estar dos brasileiros no estrangeiro.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Resenha de violões: Jorge Raphael 2008

Amigo internauta,

Para contribuir com informações sobre instrumentos, vou fazer algumas resenhas de violões. Inicio por um dos violões que utilizo, feito pelo artesão Jorge Raphael em 2008.

O instrumento é feito com abeto alemão envelhecido no tampo e jacarandá-da-Bahia na lateral e fundo. Utiliza elementos do projeto Millenium (desenvolvido pelo estadosunidense Thomas Humphrey), como escala elevada em diagonal. O leque harmônico foi desenvolvido pelo Jorge.

O timbre geral do instrumento apresenta um bom balanço entre as frequências, com um pouco mais de médio e agudo. Todo o instrumento é muito claro, e os graves são bem presentes. Com as cordas adequadas, ficam bem encorpados. Uma das "assinaturas" do Jorge Raphael é produzir violões muito equilibrados.

Possui um envelope sonoro bem equilibrado, com um ataque claro, boa sustentação e queda suave. A resposta é rápida e ágil.

A potência do instrumento é bem acima da média, e é um dos mais potentes feitos no Brasil. Numa escala de 0 a 10, estaria no 7,5. Essa intensidade se mantém bem à distância, e o instrumento é possível de ser ouvido com muita clareza e boa separação das notas. Quem toca tem uma impressão do violão soar mais fraco e menos encorpado que quem ouve à sua frente.

Tem afinação precisa, e é bem confortável pra tocar. A escala elevada em diagonal permite um maior conforto pra mão esquerda, especialmente nas regiões agudas, sem criar problemas pra mão direita, e é possível tocá-lo bem forte sem estourar as notas.

Outra "assinatura" do Jorge é fazer violões com resposta linear quase perfeita. Estímulos feitos pra mudar a dinâmica, o timbre e outros numa região (por exemplo, do piano pro mezzoforte) são muito semelhantes aos que verifica-se em outras (por exemplo, do mezzoforte pro forte).

O instrumento é feito 100% em goma-laca brilhante. Como o Jorge é dos luthiers que melhor aplicam goma-laca no Brasil, olhando com desatenção nem parece goma-laca, mas outro tipo de verniz. As laterais, o fundo e a mão utilizam peças de jacarandá-da-Bahia com cor mesclada, e a diferença entre a tonalidade marrom-clara e o marrom-escuro próximo do preto dá um charme especial ao acabamento. A meu pedido, o violão veio acompanhado de tarrachas feitas à mão por Jorg Graf ( http://www.graftuners.com/ ).

Recomendo esse tipo de violão para quem busca um violão amigável de se tocar, muito equilibrado, e que combina uma bela sonoridade com boa potência e projeção. Entre o repertório que se favorece nesse instrumento, cito composições ágeis como sonatas de Scarlatti; peças polifônicas, como composições de Bach; músicas que exigem farto uso de articulação, como Sor, Giuliani e música brasileira; e composições que exigem do instrumentista grande virtuosismo e grandiosidade, como os estudos de Villa-Lobos.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Projeto de Cristovam Buarque (PDT-DF) obriga filhos de políticos a estudarem em escolas públicas

Amigo internauta,

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF), que foi candidato à presidência da república nas últimas eleições, apresentou um projeto de lei que obriga os filhos de ocupantes de cargos públicos eleitos pelo voto a estudarem em escola pública.

No projeto se lê que "o presente Projeto de Lei permitirá que se alcance, entre outros, os seguintes objetivos: a) ético: comprometerá o representante do povo com a escola que atende ao povo; b) político: certamente provocará um maior interesse das autoridades para com a educação pública com a conseqüente melhoria da qualidade dessas escolas; c) financeiro: evitará a “evasão legal” de mais de 12 milhões de reais por mês, o que aumentaria a disponibilidade de recursos fiscais à disposição do setor público, inclusive para a educação; d) estratégica: os governantes sentirão diretamente a urgência de, em sete anos, desenvolver a qualidade da educação pública no Brasil."

Saiba mais sobre o projeto de lei em http://www.senado.gov.br/sf/atividade/Materia/detalhes.asp?p_cod_mate=82166

Mande sua mensagem para os senadores pedindo a aprovação da matéria enviando e-mail para a lista de endereços em http://www.senado.gov.br/sf/senadores/senadores_atual.asp?o=1&u=*&p=* ou telefonando para 0800 61 22 11 (ligação gratuita).

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Formas musicais: A-B-A

Amigo internauta,

Encerrando as postagens sobre elementos de uma composição musical, vamos nos voltar a um destes elementos que, de tão importante, merece um título próprio: a forma.

Como comentamos na primeira postagem com esse tema ( link ), a música é uma linguagem cuja comunicação se dá pela relação entre os elementos desse "idioma", não por uma relação destes com um objeto ou uma ideia, ao contrário de outras linguagens. Entre os elementos que organizam a relação entre o sons, a forma ocupa um papel de destaque. Nas próximas mensagens, vou escrever um pouco sobre as formas musicais que mais permeam nosso cotidiano.

A forma A-B-A é a mais comum e simples de entender. Toca-se uma seção (que chamaremos de A), em seguida outra seção diferente (que chamaremos de B) e repete-se a primeira.

Um exemplo seria a canção Samba de uma Nota Só, de Tom Jobim:


A seção A é a que a melodia utiliza sempre a mesma nota, a seção B a que a melodia emprega escalas (se inicia nos versos "quanta gente existe por aí..."). Como a canção é muito curta, com apenas um minuto, é comum repetí-la.

Ainda que uma composição utilize de uma introdução (um trecho curto para "criar o clima" da música), se emprega uma seção A, outra diferente (B), e retorna à primeira seção (sem repetir a introdução, naturalmente), ainda é um A-B-A. Um exemplo seria a canção Iron Man, da banda Black Sabbath:


A introdução segue até cerca de 0'35", a seção B se inicia em 3'15" e a seção A é repetida em 3'45".

Assim como uma composição pode ter uma introdução pra criar um clima no início, ela pode também vir acompanhada de uma coda, que tem uma função similar à da introdução, porém vem ao final da música. Como ouviremos, a canção Pretty Woman apresenta todos esses elementos.



A introdução segue até 0'12", a seção B se inicia em 01'12", a seção A retorna em 1'50" e a coda começa em 2'20". Uma peculiaridade dessa canção é que a coda é praticamente idêntica à introdução, o que permite repetí-la várias vezes.

Outros exemplos de A-B-A:

Take a Chance on Me, ABBA (a canção é repetida)


Polícia, Titãs (antes da repetição da canção, tem um solinho)


Delicado, de Waldyr Azevedo (introdução de dez segundos, pequena coda ao final)


Uma peculiaridade da forma ABA é que ela é imprópria pra escrever composições longas. Pelos exemplos acima você deve ter notado, amigo internauta, que com frequência é preciso recorrer à repetição pra música não soar muito curta. Por outro lado, permite dar unidade a uma composição com trechos contrastantes sem muita dificuldade para o compositor.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Garoto e sua relação com Carmen Miranda

Amigo internauta,

O blog Sovaco de Cobra publicou recentemente um artigo tratando da relação do violonista Aníbal Augusto Sardinha (mais conhecido como Garoto) com Carmen Miranda.

O artigo é muito bem-escrito e traz informações novas e interessantes. O endereço para lê-lo é http://sovacodecobra.uol.com.br/2009/02/carmen-miranda-e-garoto/

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Caracas agora é capital da Chavezuela

Amigo internauta,

Agora é oficial: a Venezuela pertence a Hugo Chavez. Um outro nome para o país cairia melhor: Monarquia Bolivariana da Chavezuela. Ou, considerando o domínio que essa nação exerce sobre Equador, Bolívia e outros vizinhos, talvez todo o grupo poderia constituir o Reino-Unido Bolivariano da Chavezuela.

Embora Hugo Chavez procure se associar a líderes da esquerda, como Fidel Castro, sua trajetória é quase uma refilmagem de ditadores de extrema direita. Como Adolf Hitler, tentou chegar ao poder primeiro por um golpe de estado, que fracassou, e depois o tentou pelos meios legais. Como Mussolini, sua figura foi adorada pelo povo e por nações vizinhas. Como Pinochet, mudou a legislação do seu país para beneficiá-lo. A única diferença que vejo entre ele e Hitler é que Chavez não escreveu um livro nos dois dias em que esteve preso.

Ao contrário do que Chavez e seus simpatizantes dizem, democracia não é a ditadura da maioria, tão pouco seguir decisões de referendos e eleições mil. Democracia é dar voz, representação política e poder a TODOS os grupos da sociedade, e fazer com que a sociedade crie pactos entre si. É fazer com que as decisões do país sejam razoáveis para todos, mesmo que não agradem plenamente a alguns.

Não é isso que se vê na Chavezuela. Há o grupo dos "con Chavez" e o resto. Todos esses referendos e eleições só ouvem um lado, e servem apenas pra dividir o país. Está pior que Corinthians e Palmeiras em final de campeonato.

O referendo de ontem também mostra que a "democracia bolivariana" é uma falácia. Há pouco tempo foi reprovado pela população um pacote de medidas que incluía a reeleição ilimitada. Chavez "reconheceu" a derrota criando outro referendo propondo só a reeleição ilimitada. Penso que, mesmo se o "Não" ganhasse, Chavez novamente iria mandar outro referendo. Como o governo dele só acaba em 2012, é tempo mais que suficiente pra insistir no tema até ganhar.

O que mais me surpreende é que ele encontra apoio em grupos brasileiros que, se vivessem sob a égide do bolivarianismo, não teriam a liberdade e o poder para combater o governo que desfrutam no Brasil.

Fiquemos atentos, pois. Pro momento, atualizemos os mapas. Caracas é capital da Chavezuela.